Texto original: https://www.liberation.fr/debats/2020/03/27/la-conjuration-des-losers_1783349
E se o vírus foi criado para que todos os losers [perdedores] do planeta pudessem ter de volta seus ex sem precisar viver com eles 24 horas por dia, numa espécie de nova realidade?
Fiquei doente em Paris na quarta-feira de 11 de março, antes do governo francês decretar o confinamento da população, e quando saí da cama, dia 19 de março, pouco mais de uma semana depois, o mundo tinha mudado. Quando fui para a cama, o mundo era próximo, coletivo, viscoso e sujo. Quando saí da cama ele tinha se tornado distante, individual, seco e higiênico. Durante a doença eu não pude avaliar o que estava acontecendo política ou economicamente, porque a febre e o desconforto tomaram minha energia vital. Ninguém é filósofo quando sua cabeça está explodindo. De vez em quando eu assistia às notícias, o que só me deixava mais desconfortável. A realidade era indistinguível do pesadelo, e as manchetes eram mais confusas que qualquer pesadelo causado por minhas alucinações febris. Durante dois dias inteiros decidi não abrir site algum como receita antiansiedade. É a isso e ao óleo essencial de orégano que atribuo minha cura. Eu não tive dificuldades para respirar, mas tive problemas em pensar que eu deveria continuar respirando. Eu não tive medo de morrer. Eu tive medo de morrer sozinho.
Entre a febre e a ansiedade, eu disse a mim mesmo que os parâmetros de organização do comportamento social tinham mudado para sempre e não podiam mais ser alterados. Senti essa evidência com tanta força que me perfurava o peito à medida que minha respiração se tornava mais fácil. Tudo tomaria para sempre essa nova forma. De agora em diante teríamos acesso a formas cada vez mais excessivas de consumo digital, mas nossos corpos, nossos organismos físicos, seriam privados de todo contato e vitalidade. A mutação tomaria a forma de uma cristalização da vida orgânica, de uma digitalização do trabalho e do consumo, de uma desmaterialização do desejo.
Aqueles que eram casados estavam agora condenados a viver confinados vinte e quatro horas por dia com a pessoa com quem se casaram, independentemente de a amar ou odiar, ou melhor, ambos ao mesmo tempo, o que, aliás, é o mais comum: o casal é governado por uma lei da física quântica segundo a qual não há oposição entre termos contrários, mas sim uma simultaneidade de fatos dialéticos. Nesta nova realidade, aqueles de nós que perderam o amor ou que não o encontraram a tempo, isto é, antes da grande mutação do Covid-19, foram condenados a passar o resto de suas vidas totalmente sozinhos. Nós sobreviveríamos, mas sem toque, sem pele. Aqueles que não ousaram dizer às pessoas que amavam que não podiam mais encontrá-las mesmo que pudessem expressar seu amor agora tinham que viver para sempre na expectativa impossível de um encontro físico que nunca aconteceria. Aqueles que escolheram viajar ficariam para sempre do outro lado da fronteira, e os burgueses que foram para a praia ou para o campo passar os dias de confinamento em suas agradáveis casas de férias (pobrezinhos!) nunca mais poderiam voltar à cidade. Suas casas seriam solicitadas para acomodar os desabrigados que, sim, ao contrário dos ricos, viveriam permanentemente na cidade. Tudo seria corrigido na nova e imprevisível forma que as coisas tinham tomado depois do vírus. O que parecia ser um confinamento temporário continuaria para o resto de nossas vidas. Talvez as coisas mudassem novamente, mas não para aqueles de nós com mais de 40 anos. Essa era a nova realidade. A vida após a grande mudança. Por isso, perguntei-me se valia a pena continuar vivendo assim.
A primeira coisa que fiz quando saí da cama depois de estar doente com o vírus por uma semana tão imensa e estranha quanto um novo continente foi me fazer esta pergunta: sob que condições e de que forma valeria a pena continuar vivendo? A segunda coisa, antes de encontrar uma resposta a esta pergunta, foi escrever uma carta de amor. De todas as teorias de conspiração que li, a que mais me atraiu é a que diz que o vírus foi criado por um laboratório para que todos os losers [perdedores] do planeta pudessem recuperar seus ex — sem realmente precisar voltar com eles.
Cheio do lirismo e angústia acumulados durante uma semana de doença, medos e dúvidas, a carta a minha ex não foi apenas uma declaração poética e desesperada de amor, mas sobretudo um documento vergonhoso para a pessoa que o assinou. Mas se as coisas não podiam mais mudar, se aqueles que estavam longe não podiam mais tocar uns aos outros, do que importava ser tão ridículo? Do que importava agora dizer à pessoa que você amava que você a amava, sabendo que provavelmente ela já o esqueceu ou substituiu, se você nunca mais poderia vê-la de qualquer jeito? O novo estado de coisas, na sua imobilidade escultural, deu um novo nível de what the fuck até ao seu próprio ridículo.
Escrevi essa linda e horrivelmente patética carta à mão, coloquei-a num envelope muito branco e escrevi nele, na minha melhor caligrafia, o nome e o endereço de minha ex. Me vesti, pus uma máscara, calcei as luvas e os sapatos que tinha deixado à porta e desci até a entrada do prédio. De lá, seguindo a regra do confinamento, eu não fui para a rua, mas sim para o lixo no pátio. Eu abri o balde de lixo amarelo e coloquei a carta para minha ex — em papel reciclável. Voltei lentamente para o meu apartamento. Deixei os meus sapatos à porta. Entrei, tirei as calças e as coloquei num saco plástico, tirei a máscara e a coloquei na varanda para arejá-la, tirei as luvas, as atirei para o lixo e lavei as mãos durante dois minutos intermináveis. Tudo, absolutamente tudo, foi fixado na nova forma que tinha surgido após a grande mutação. Voltei para o meu computador e abri o meu e-mail: e voilá, lá estava, uma mensagem de minha ex intitulada “Penso em você durante a crise do vírus”.