Texto original: https://www.liberation.fr/debats/2020/02/14/la-quatrieme-vague_1778454
Ou a quarta revolução, o fim da soberania patriarcal-colonial e a aurora de uma nova era que une avós e netas estupradas.
Um dia um/a historiador/a do futuro pós-patriarcal se lembrará que foi nesta década que centenas de milhares de mulheres de todo o mundo se manifestaram para denunciar um estupro cometido por seu pai, por seu amigo, por seu tio, por um produtor de filmes, por um colega de trabalho, por um marido, por um namorado, por um ex-namorado, por um padre, por um professor, por um treinador esportivo, por um cantor, por um motorista de ônibus, por um grupo de estrangeiros, por um fotógrafo de moda, por um grupo de amigos, por um apresentador de televisão, por um artista de renome internacional, por um cantor de ópera, por um juiz, por um agente comercial, por um advogado, por um barman, por um antropólogo, pelo dono de um bar, por um policial, por um matemático, por um bispo, por um psiquiatra, por um amigo de seu namorado, por um youtuber, por um católico, por um judeu, por um muçulmano, por um budista, por um agnóstico, por um ateu convicto, por um místico, por um guru de uma religião desconhecida, por um fundador de seita, por um hippie, por um amante de música clássica, por um yuppie, por um punk, por um roqueiro, por um rapper, por um trapper, por um psicanalista, por um filósofo, por um diretor, por um ginecologista, por um presidente da República, por um professor emérito do Collège de France, por um sociólogo, por um presidente de comissão de prêmios literários, por um comunista, por um diretor de campanha de um partido político, por um diretor de teatro, por um socialista, por um vendedor de tralhas, por um membro do Reagrupamento Nacional, por um diretor de museu, por um apresentador de televisão, por um motorista de táxi, pelo filho de um amigo, por um agente de segurança, por um arcebispo, por um diretor de orquestra, por um oftalmologista, por um liberal, por um médico sem fronteiras, pelo melhor amigo da família, por um escritor, por um bibliotecário, por um diretor de museu, por um instrutor, por um ecologista, por um inspetor alfandegário de aeroporto, por um líder de escoteiros, por um yogi, por um capacete azul [agente de paz das Nações Unidas], por um pediatra, por um diretor de centro cultural, por um pintor, por um médico da família, por um caçador, por um vizinho, por um toureiro, por um ator, por um irmão, por um acupunturista, por um jornalista, por um primo, por um cunhado, por um técnico de caldeira a gás, por um transportador, por um massagista, por um general do exército, pelo presidente de uma comissão acadêmica…
Um dia um/a historiador/a do futuro pós-patriarcal se lembrará que foi nesta década que centenas de milhares de mulheres de todo o mundo se manifestaram para denunciar um estupro em um estúdio de filmagem, no escritório, na universidade, em sua própria casa, em sua própria cama, na escola, em um carro num curto trajeto de Uber, em uma boate, fora de uma boate, em uma rua vazia, em uma casa onde trabalham como empregadas, no subsolo de seu prédio, pedindo carona, em um ônibus, nos vestiários da piscina, durante uma aula de piano, no ginásio, no dormitório do internato, no chuveiro do hospital, no dormitório do quartel, numa floresta durante uma corrida, na sala de depoimento num interrogatório policial, num quarto de hóspedes, num corredor de metrô, numa sala de descanso, em uma sinuca, no carro indo para um show, no show, depois do show, em uma barraca, nas escadas de seu prédio, no banheiro de sua casa, na cama de seus pais, no consultório do dentista, no escritório do diretor, em um elevador, em um quarto de hotel, na sala de espera, na academia, na cozinha de sua casa, no carro de seu namorado, no escritório do reitor, na sala de reunião no trabalho, no consultório do ginecologista, na sala de consulta psiquiátrica, na sacristia…
Um dia um/a historiador/a do futuro pós-patriarcal se lembrará que todas as mulheres estupradas do mundo, todos os corpos sexuais subalternos, as meninas estupradas, os meninos estuprados, as crianças estupradas, todos os corpos tratados há séculos como dispositivos masturbatórios vivos a serviço da libido patriarcal-colonial, se reuniram para dizer “BASTA”. Lembraremos como elas passaram do grito individual #MeToo ao grito coletivo de Ni Una Menos, como elas ocuparam as ruas cantando “El violador eres tú”. Falaremos desses anos como a quarta revolução, aquela que juntou as avós estupradas às netas estupradas. Falaremos dessa época como o começo do fim da soberania patriarcal-colonial e o início de uma nova era transfeminista.